água nos ouvidos

sinto demais.
bom ou mau, odeio não ser mestre na obra da minha própria emoção.
porque cansa, porque dói – até o prazer pode magoar.
ninguém me concedeu um controlo remoto que me oferecesse a possibilidade de entrar e sair de uma catatonia bem arquitectada.
ninguém me deu o ombro e disse “desliga, eu trato disto a partir daqui”
não me queixo – é só difícil de me fazer compreender em alturas dessas. nenhum “eu percebo… claro… pois…” vai ser suficiente pois a luta acontece dentro e ninguém a vê, mesmo que eu pense com muita força “quero ser transparente quero ser transparente”
dou-me conta que, a cada dia, aprecio mais o momento twitch antes de adormecer.
o último laivo de consciência que me grita “vais dor…” e puf.
não sei dizer se dura um segundo ou uma hora – sei que me sossega e me deixa, de uma forma estranha, feliz e aconchegada.
em dias maus, vivo para essa altura. a altura em que tenho consciência que vou deixar de a ter daí a nada. 
escrito assim até parece mau e masoquista… não – é somente uma fantasia sobre o controlo remoto que poderia ter (num futuro?) para me desligar do exterior.
analisando vários momentos do dia, muitos dos que me sabem melhor têm precisamente a ver com os momentos de consciência deturpada, lenta e pouco alerta…
vou explicar assim – imagina que estás a escrever numa máquina, daquelas manuais antigas. 
queres escrever um texto, precisas de o escrever – é uma tarefa de vida ou morte. ou escreves bem e tal como acordado ou então… adeus.

sentas a máquina ao colo ou numa mesa e começas a escrever. as primeiras palavras correm e escorrem, estás a escrever rápido e a fazer um bom trabalho – entusiasmo!
preenches a primeira linha e sentes que está tudo sobre controlo, carregas para seguir para a linha inferior.
e continuas a escrever. mas, distraído, nem dás conta que a tecla está estragada – estás a escrever sobre a primeira frase, estás a estragar o trabalho!!
arrancas a folha e rolas outra (tic tac tic tac) – primeira linha! carregas e volta a acontecer o mesmo.
vezes sem conta, linhas sem fim. a folha não avança e os murros na máquina não servem de nada.
a última esperança será, tendo em conta as consequências desta tarefa, escrever tudo na mesma linha – não importa se está confuso, se é uma linha de manchas pretas.
estás delirante e não consegues acreditar no que está a acontecer, mil e um pensamentos disparam e lembraste de tudo e até lhe acrescentas mais.
na fúria de saberes a tua fatalidade próxima, olhas para a folha e naquela única linha consegues ver milhões de emoções, sentimentos, razões, imagens… porque aquela linha, escrita 1000 vezes por cima, tem tudo o que deste de ti.
é assim que funciona (expliquei bem?) quando o cérebro não dá descanso. os pensamentos não são seguidos, sobrepõem-se. por isso ando sempre com uma quantidade estúpida de notebooks e formas de anotar o que quer que seja.
é-me difícil lembrar de datas, é-me impossível ter memórias bem concretizadas na linha temporal porque está tudo… em cima de tudo.
cada pensamento, cada imagem, cada pessoa, cada lágrima – está tudo sobreposto. é como ter um escritório desarrumado – não conseguia.
o meu espaço de trabalho está meticulosamente articulado de acordo com linhas paralelas e perpendiculares – não, não acredito que me aconteça algo de mau se não for assim – simplesmente sinto-me mais confortável num espaço organizado. 
sendo muito visual e com uma memória fotográfica estupidamente boa comparada com todas as outras. o espaço tem de estar organizado. tenho de saber onde está o quê.
e daí, claro, partimos para cenários maiores.
preciso de certezas, de saber, de conhecer, de estudar.
de PERCEBER.
posso parecer contraditória dada a minha impulsividade a certos momentos mas até essa considero ser calculada – por segundos, por rápida análise que normalmente corre nas linhas de “não tenho nada a perder”.
é precisamente a necessidade de organização, arrumação, de perceber, de saber e de estar plenamente lúcida (para poder viver… só isso) que acaba por me cansar ainda mais.
vou novamente explicar…

tens um espaço pequeno… estás encarregue de organizar ficheiros. tens uma secretária e alguém entrega os documentos por uma ranhura. de resto, não há porta nem janela.
organizas facilmente os primeiros exemplares mas a fenda continua a oferecer documentos – e mais e mais e mais.
as categorias pelas quais te reges quando são poucos têm de ser alteradas, os assuntos são díspares e diversos – então, precisas de receber os ficheiros ao mesmo tempo que tentas reorganizar o pequeno espaço.
a cada 5 documentos sabes que precisas de organizar as pilhas de forma diferente. tens um braço esticado a receber pastas e outro a tentar colocá-los da forma correcta. chegará o momento no qual não há mais variações nem espaço possíveis – o desespero fará com que atires tudo ao chão e a tortura leva-te a um cansaço que nunca pensaste possível.
é mais ou menos isto.
organizo, conheço, estudo, percebo – para tentar organizar as linhas que aparecem umas por cima das outras, escritas vezes sem conta e sobre assuntos completamente disparatados, sérios, imaginários, infantis, derrotistas, optimistas (tudo). 
a cada dia tenho mais para arrumar, mais para organizar e chega ao ponto do “desespero” que, para mim, é a libertação na forma de impulsos porque é necessária essa explosão – o cérebro está cansado, baralhado, já nem vejo bem. e aí, é mais fácil ser uma eu bem disposta e extrovertida e sem agendas e notebooks e tablets atrás (redundâncias).
é um constante crescendo que acaba no esparramar no chão. e isso não é propriamente mau.
o que é realmente difícil de suportar é a necessidade constante de ver o que está por detrás de cada vulto.
a curiosidade, o tirar notas, o aprender.
porque há dias bem merecidos que bem podiam ser passados a descansar.
há cerca de 3 dias que estou para “descansar”.
não consigo.
eu quero (e tenho essa possibilidade) de passar umas boas horas a ver filmes e basicamente não ter de me mexer.
mas qual quê – tenho de sair, tenho de fazer isto, tenho de reorganizar aquilo, preciso de falar com ele, preciso de falar com ela, preciso de fazer um calendário novo (porque este já está muito escrito), preciso de voltar atrás porque me esqueci de uma coisa num balcão, preciso de voltar atrás porque ao ir buscar o que deixei no balcão deixei cair outra coisa. preciso de tomar banho, preciso sempre de tomar banho, de me molhar, de trocar de roupa, de dobrar coisas, de sublinhar todos os livros que leio (a um bom ritmo mas são sempre livros demais ao mesmo tempo – enfim). ups, esqueci-me! preciso de comer. mas não tenho fome. mas “preciso” – ugh. esqueci-me de dizer isto, esqueci-me de dizer aquilo, esqueci-me de passar aqui, ou ali.
zás, zás, zás
hélices de helicóptero
há 3 dias que digo “ok, agora não que vou DESCANSAR”
e fecho-me em casa e tento “descansar”. já mudei a decoração do apartamento, já fiz mudanças de vida, já defini umas coisas e destruí outras.
e quando me sento no sofá, para descansar, acontece isto. o que estás a ler.
está a passar um documentário noutra janela mas não estou a ver, não consigo concentrar-me.
também já chorei – uma tristeza súbita que me disse “não há mais carinho”
acabo agora de cancelar uma chamada porque não quero, quero desligar.
saí do meu terceiro banho do dia há pouco – sabes porquê?
porque encontrei o sítio perfeito.
o sítio onde fico durante longos minutos. onde a água cai de forma perfeita pela minha cabeça e cria uma barreira descendente ao longo dos ouvidos.
esse momento belo em que não se ouve nada senão o correr da água – que se lixe o ambiente, preciso de manter a sanidade!
por vezes salto para a água só para isso mesmo. 
é o momento mais parecido com aquele que eu tanto gosto… de ter a consciência de não a estar a ter em pleno.
e aí consigo descansar. pelo menos relaxar.
porque não se trata de deixar de ser – trata-se apenas de não viver como se a qualquer momento fosse apanhar um susto.
boa noite
(pms’ing)

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