atribulado I

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C sabia que tinha sido uma obrigação – voltar a inscrever-se no espaço onde estudou não fazia qualquer sentido.

De qualquer forma, aguardava pelas notícias. Haveria colocações e ela iria com a D, isso descansava-a um pouco na missão a que se sentia forçada.

A C caminhou pelas ruas escuras e estava até feliz. O B iria para o mesmo sítio também.

Qual prisão de semi-liberdade, iriam os três passar um ano onde já tinham passado múltiplos outros.

Sentou-se num banco de cimento que, tal como toda a cidade e ruelas, não fazia sentido no escuro.

D caminhava mais atrás e olhava para todos os ecrãns de computadores – estes estavam ao dispôr de qualquer pessoa, colocados em suportes nas paredes das ruelas.

A C não queria saber. Só queria que a colocação acabasse, já sabia o que ia acontecer e já tinha, de certo modo, aceite a cumprir o que lhe parecia um castigo sem sentido. Mas enfim – iriam os três, não poderia ser assim tão mau!

De repente, D grita “Hey! Olha já saiu tudo! Vou ficar em História contigo!” – nada de novo, era previsível. Só faltava saber do B.

E enquanto se recostava no banco de cimento e aguardava mais informações, imaginava o que significava tudo aquilo – uma dose até Dezembro, depois outra de Janeiro a Junho.
Não poderia ser assim tão mau.

Logo depois, desinteressada de tudo menos da informação que confirmasse a presença de B, começou a ficar um pouco chateada – e então? Não teria ele visto a mesma coisa ao caminhar até o ponto combinado?
Todos os laptops abertos pelas ruas e ele não dizia nada?

Finalmente, o telemóvel tocou. Era o B.

“Olá…” – “E então? Também entraste? Isto é completamente estúpido! Não quero nada ir!”

Silêncio.

E logo assim, feita magia, ele aparece ao lado dela no banco. Nada de estranho nisso.

B – “Olha… eles mandaram-me para a Dinamarca… sabes que era obrigatório declarar toda a informação!”

C não queria acreditar. Começou a tremer. Dinamarca?!

B – “Sim… sendo que a minha área é multimedia, eles fisgaram-me logo.”

C – “Mas não podes não ir?!”

B – “Tu sabes como isto funciona. Assim que eu tentasse fugir do que saiu no sorteio eu ia sofrer. É obrigatório, mas não te preocupes! Eu volto.”

A C sabia que sim, ele voltava. Mas que grande golpe de azar! Tinham acabado de decidir “fazer vida de adultos”.
Iriam estar juntos em História e era pela presença de B que tinha aceite o facto de não poder fugir das obrigações.

B  – “Ainda por cima era um sorteio para uma única vaga. E de todo o Mundo, escolheram-me a mim! Já viste o problema que ia criar se dissesse que queria ficar para ficar contigo?! Eu sei! Mas tu também sabes que não podemos fugir”.

D observava toda a cena por cima do ombro, estava triste pela amiga e agora nova colega e pairava a uma distância suficiente para ouvir a conversa.

C – “Mas… Voltas em Dezembro, certo?”

B – “Soube agora que não… Só em Março…”

C desatou num pranto. Não percebia. Estas obrigações, estas colocações forçadas, a separação… Tudo seria mais fácil se B ficasse por perto – era até divertido! Mas assim não!

No entanto, sentia que tinha de aceitar porque, pelos vistos, este novo sistema era uma espécie de mecanismo da ditadura.

Não havia ninguém a liderar os concursos e as vagas mas os computadores davam todas as informações necessárias para as vidas de todos.

E não se podia realmente fugir…

De repente, passa um avião, demasiado baixo – haveria algum aeroporto na zona!? Até agora só tinha visto ruas estreitas e ecrãs ligados para consultar o destino.

B, de lágrimas nos olhos mas mantendo sempre a compostura, levanta-se. Sacode a t-shirt com as mãos e diz “Tenho de ir”.

E de repente já não era noite – era um dia demasiado brilhante.

C não conseguia ainda encaixar a informação e continuava a chorar enquanto abraçou B.

B – “O meu avião já deve estar aí, é melhor ir andando – sabes bem que eles não brincam em serviço! Não quero levar com consequências – é melhor estarmos calados e eu volto em Março”.

A C sabia que não era verdade. Não tinha noção de como o sabia (até ao ponto de certeza) mas B não voltava em Março. Nem em Abril, nem em Maio.

B deu-lhe um beijinho forte na bochecha e foi a correr para o avião.

D tinha assistido a tudo e sabia que estava a ser… complicado.

Sentou-se logo ao lado do pranto de C.

“Tem calma, sabes que não podes fazer nada” – “Mas… eu nem quero ir para aquela porra de sítio onde me estão a obrigar a ir!! Estão a estragar a minha vida! Não consigo aceitar isto!” – “Ouve, eu também não quero ir mas é só um an-” – “Pois! Só um ano é o slogan para nos convencer a estarmos lá! Um ano é MUITO TEMPO! Eu não quero voltar….”

D abraçou C enquanto ela chorava pela vida que tinha acabado ali.
Pelo menos como a conhecia.

E chorava também por raiva – que injustiça a que é ditada em silêncio que separa aquilo que importa!

E foi assim, através de um monitor e do sentido de dever que acabou, de novo, o céu brilhante.
Estava de novo escuro (em tempo record – nunca tinha visto nada assim!). E agora chovia. E estava na hora de ir para casa.

Casa? Não fazia ideia de onde era…

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