é… diferente!

aconteceu algo recentemente que não sucedia há algum tempo…

não o sei explicar, não o sei interpretar, sei somente denominar de forma pseudo-científica. a forma de estar fora do corpo – não gosto da palavra em si, prefiro explicar assim…

aconteceu da mesma forma que da última vez.

enrolada na toalha de banho, espelho de corpo inteiro.
toalha azul clara, pele bem pálida.
bochechas cor-de-rosa e cabelos em pé, desalinhados – nunca secos.

e de repente assusto-me – os olhos são pretos…

peço sempre a alguém que explique a cor dos meus olhos porque acho que são muito negros – quase pretos.

tiro algumas fotografias com flash (ouch) à íris para tentar perceber que raio de cor é esta.
não é que tenha alguma fixação por cores de olhos, por achar que são feios… nada disso!

é que, por vezes, os meus olhos assustam-me.

como agora. e como das outras vezes. os olhos tornam-se 0 0 0 100 em CMYK.
e vejo somente uma face pálida, carecendo de feições com uns olhos assustadoramente estranhos ao que me habituei a ver.

aproximo-me do espelho e o negro não dissipa – não é impressão minha, escureceram.
aí, toda a face encolhe do susto – não sou eu, aqueles olhos não são meus, quem é esta pessoa??

de vez em quando brinco com a situação e imagino que deve ser assim que bebés ou animais interpretam a imagem no espelho – como outra entidade em frente.

eu vejo outra eu ali, em frente. e o espaço não é muito grande – fujo para qualquer outro sítio da casa porque não há mais coisas dessas, espelhos que mostram gente diferente.

e é no diferente que me tenho ficado. e tentado re(conhecer).

é tããããããão difícil estar de acordo com quem sou agora…

sim, aconteceram algumas coisas chatas. sim, os anos passaram. sim, as circunstâncias mudam.

não será esse o problema – é antes a súbita disparidade de reacções, pensamentos, acções.

foi tudo… DEMASIADO rápido.

como é suposto estar bem quando ainda me estou a conhecer?!

sempre tive alguns problemas de raíz – como erva daninha, a ansiedade espreita, a depressão ataca, a impulsividade é a minha amiga.

pensei conhecer e reconhecer a ansiedade – conhecia-a como arqui-inimiga. Agora? Dou conta não ter sabido de nada…

pensei conhecer e reconhecer a depressão, velha amiga de longa data. Ora aparece, ora vai embora. Conheço o fundo, conheço a luz. Conheço o feixe laser e pouco conheço o equilíbrio.
Agora? Não sabia o fundo tão escuro, não sabia a luz tão forte, não sabia o laser capaz de me invalidar.

pensei conhecer e reconhecer a amiga – a impulsividade. Uma coisa minha que nunca me deu grandes problemas – somente o explicar depois para o que me apeteceu fazer antes.
Agora? Se aquilo era impulsividade I was a fucking pussy.

… não era a pessoa mais sociável do mundo, não era a pessoa mais solitária.

preciso de pessoas no tempo e altura certos – preciso de estar sozinha e em silêncio metade do tempo.

agora? “Estou a ter uma conversa coerente? Estou a falar como antes?” é uma pergunta que por vezes me urge perguntar.

a solitude é mais necessária que nunca quando não sabemos muito bem quem somos – é importante termos alguma noção do que somos capazes ou temos tendência para fazer ou dizer antes de conviver.

e nestes momentos de silêncio, música baixa e livros espalhados por ler, tenho medo de não me voltar a re(conhecer).

porque tudo aquilo familiar é agora estranho – e, da mesma forma, os outros reagem de formas diferentes, reacções inesperadas que eu jamais calcularia antes.

porque sim, tinha uma matriz, uma série de conhecimentos adquiridos e embebidos em mim que me fariam prever o resultado de acções, revelações, toques e reacções.

agora?

nada sei. será porque estou diferente ou o mundo abanou certa noite de madrugada, comigo em sono profundo, e alterou toda esta gente da mesma forma?

perdi intenções. perdi sensações. perdi vontades.

acho que sim, vou deslizar.

há “uma linha que separa” os pecadores dos santos. Eu sabia qual era – jogava com ela, entrelaçava-a nos dedos, escorria nas costas e eu sorria.

agora? sei mais o que esperar de um animal selvagem…

humanos não são para mim.

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