Escadas Escuras

        A Mariana estava a brincar com a gata. Tinha acabado de entrar em casa e estava a atirar pequenos objectos e coisas que apanhasse por perto para espicaçar o bicho peludo. Na casa da Mariana há uma escadaria que ela sempre detestou…. é sombria e escura e tem um canto de 90 graus que não permite ver o final da escada quando a começa a descer porque há paredes altas mesmo ao lado. Ela sempre subiu essas escadas a correr (não sabe bem porquê) e sempre as desceu devagar devagarinho porque o canto de 90 graus já deu para muitas quedas. 

Um dia a Mariana estava no sofá e abriu a porta da sala. A porta para as escadas está mesmo em frente. Estava farta de ter a gata no colo, precisava de se levantar. Sem pensar duas vezes, atirou um bibelot que estava em cima do móvel ao lado porque sabia que a gata ia a correr atrás daquilo. Ouviu-se o som do bibelot a rodar quando pousou no chão mas aquilo continuou a rodar e foi direitinho para as escadas. Depois, só se ouviram sucessivos “ping”, “tuc” e “bang”. 

Ficou em alerta! A porcaria do bibelot fez o trajecto das escadas todas. Foi parar lá em baixo, no escuro, onde não se vê. Levantou-se para ver os estragos. Pegou na muleta e foi até à porta das escadas. A gata tinha-se assustado demasiado com o barulho que aquilo fez e já tinha subido de novo as escadas a correr. 

Estavam a Mariana e a gata a olhar para o escuro das escadas. A Mariana sabia que mesmo no final das escadas estava um móvel delicado com muitos pormenores decorativos e de grande valor sentimental. E aquele bibelot não era brincadeira – parecia uma esfera enorme, carregada de pequenos vidrinhos que a faziam reluzir. Ou a bola ou o móvel estariam estragados de forma irremediável – a Mariana estremeceu. 

A gata olhava para ela de cauda a abanar. Estava à espera de poder brincar de novo. Mas a Mariana não conseguia caminhar e por mais que se esticasse não conseguia decerto ver o final das escadas. O que aconteceu ali no final da bagunçaria era decerto um mistério. Estava só mas a gata é como se fosse pessoa. 
A Mariana, nos dias seguintes, não se preocupou muito com o raio da bola. Que estupidez fui logo atirar aquela merda! – pensou. Era a preferida. Podiam estar os vidrinhos todos estilhaçados no chão, podia estar o móvel de valor sentimental estragado. Mas ela simplesmente não conseguia ir verificar e ninguém lhe podia relatar o que estava no chão à vista! Estava triste e chateada mas ao mesmo tempo preocupada. Tentou, de todas as formas e mais algumas, perceber em que estado estava a confusão que criou. Fez várias tentativas bizarras para avaliar os estragos – pegou numa vassoura e aplicou-lhe cuidadosamente um espelho para poder ver o reflexo com a luz ténue mas o espelho soltou-se e caiu ao chão logo ali nos primeiros degraus. 

Foram tantas as tentativas falhadas para tentar perceber se o móvel se partiu ou danificou… ou se os vidros ainda faziam parte daquela que era conhecida como bola (embora pudesse não o ser mais). Não conseguia sequer dormir como deve ser! Tentava distrair-se e pensar noutra coisa mas não sentia senão culpa porque quem tinha atirado a bola tinha sido ela e agora, tudo o que estivesse danificado, era só a si que devia.
Nalguns dias era mais fácil não sentir uma culpa horrenda que infecta como germes e a fazia sentir fisicamente maldisposta. Mas nos sonhos, ai os sonhos.
Os sonhos da Mariana sempre foram demasiado fáceis de interpretar. A rapariga tinha um dom fantástico de se deixar levar pelos acontecimentos do dia e fazer resumos na noite seguinte. Seria talvez uma maneira mais fácil de dar o dia por encerrado – de forma mais definitiva.
A Mariana não conseguia viver com o não saber porque a qualquer momento poderia entrar alguém e ver o fundo das escadas. E aí? Ela não sabia se se ia assustar e se a iam expulsar de casa. Não sabia se alguém se ia deparar com os estilhaços e nem sequer reparar. Nem sabia ainda se alguém iria apenas sorrir e encolher os ombros, subindo as escadas dizendo “Apanho isto mais tarde”. 
A entrada era por aquelas escadas. Qualquer pessoa que entrasse para o interior da casa teria de subir o raio das escadas. A merda das escadas. E ela continuava no sofá, à espera que a gata lhe trouxesse vestígios da desgraça que lhe pudessem dar uma pista. 
Sempre era melhor do que o silêncio constante aterrador da incerteza. Tinha medo, muito medo. Por várias vezes tinham entrado pessoas e subido as escadas sem que ela desse conta. Muitas dessas vezes ela assustou-se pois não contava com isso e simplesmente porque nunca gostou das escadas de qualquer forma. Então, evitava olhar para lá e era bastante fácil estar sozinha para logo a seguir ter um vulto à sua direita – “AH!!! ASSUSTASTE-ME!!!”. A reacção normal era o riso. A Mariana ainda assustada mas o vulto ou agora pessoa, ria-se do susto que foi sem intenção. Por vezes era diferente – os passos dados escada acima eram tão fortes e assustadores que a Mariana sabia que não vinha de lá coisa boa….
De qualquer forma ela tentou saber, dias a fio, o que raio se tinha dado no final do escuro.
Ela sabia haver fragilidade e atirou-lhe uma bola pesada e carregadinha de vidro mesmo na cara! Que descuido monumental…. ou, coitada da gata, era para ela ir atrás, há assim tanto problema? E nestes pensamentos a Mariana viveu semanas a fio enquanto ninguém entrou para lhe dizer o final do drama que havia criado na sua cabeça.
A Mariana sonhou até ter visto a preciosa bola de cristais brilhantes. Foi num daqueles sonhos que resumem o dia – no sonho, ela ia a pegar na bola mas ela estava sempre a rolar à sua frente. Assim que a Mariana parava, a bola parava de rolar também. Assim que a Mariana dava um passo, a bola avançava outro. E foi assim à volta de um edifício qualquer que o sonho criou – a bola sempre na mira dela enquanto ela a tentava agarrar. No sonho, a bola escapou sempre. 
Na realidade, a Mariana continua sem saber o que se passou e não sabe bem o que sentir. Culpada? Amargurada sim, com certeza pois isso sente em si. Ansiedade? Também. Digamos que não saber que estrago causou foi um embate forte para ela. 
Ela decidiu escrever um email do sofá onde a gata está pousada de cauda a abanar. 
“To:  Bola com vidrinhos feita bibelot e Móvel de Valor sentimental
Subject: Por favor digam-me que estão bem!
22 January 2017
Por favor alguém me diga como estão as coisas aí no fundo. Eu não estou bem. Quer dizer, estou bem. Estou bem. Às vezes é difícil mas tenho estado bem! Mas há coisas que me agitam assim do início ao fecho do dia, uma constante angústia por não ter notícias do vosso paradeiro. Bibelot, desculpa, pensei que fosses mais forte. Móvel, por favor resiste porque já não conseguia ser feliz sem te ver ali, no final das escadas, no escuro.
Se não disserem nada em breve, irei atirar a muleta ao ar e eu mesma vou cair pelas escadas até vos encontrar.
Porque assim não, não sem razão ou indicação. Isso não se faz. Eu digo-vos: sou humana mas sinto-vos sentientes. E se tal o forem, compreenderão a minha angústia e constante inquietude. Não saber se vos causei estrago é algo que me pesa. E não quero mais esse peso. Não posso mais esse peso. Aliás, o peso é estúpido. Fui eu que atirei a bola mas também o corredor não me permite ver nada! Podia ter atirado a bola e teres ficado assim no primeiro lance. Mas não, foste para o escuro. Mea culpa? Não sei. Se calhar é o brilho dos vidrinhos e o meu medo do corredor escuro. Podias ficar a brilhar lá em baixo e fazer-me perder o medo. Assim já não caía de cada vez que subo as escadas a correr porque não gosto de andar por ali.
De qualquer forma, deem notícias. Em breve estarei de melhor saúde e vou conseguir descer as escadas todas e ver como de facto se encontram. Se calhar tu bola estás bem da vida. Se calhar encaixaste bem no móvel e decidiste ficar por lá. Tudo bem, óptimo mas por favor podias ter avisado que te ias mudar! 
Bem, a gata precisa de festas e eu preciso de me distrair. Agora que não estás aqui não percebes que os meus domingos são como dia útil. Bah! Um dia útil destes, qualquer, eu vou aí abaixo avaliar os estragos. 
Mariana”

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