hoje não

lençóis amassados
arremessados para o canto do quarto
durante o pesadelo que fez pontapear
(é costume, esta cama é especial
faz-me correr a dormir, faz-me tudo de mal)


sinto de imediato
“hoje não quero ser”

mas a luz teima em entrar pelas perfurações
da janela torta de sempre…
merda.
abro os olhos
semicerrados
esticoooooooooooooooo-me
.
merda… as imagens são tão reais!
merda de noite – não quero mais sonhar
demasiado fraca para qualquer coisa
que não seja voltar a dormir
.
fecho os olhos com força
vou buscar as pontas dos lençóis
e perco o ódio ao ar quente da cama
tapo a cabeça 
vou para o fundo dos lençóis
“aqui ninguém me vê”
.
quinze minutos
meia hora
… tem mesmo de ser, não é?
– grito para o céu, irritada com o meu destino cósmico
.
tremo e sinto o corpo cair para o lado esquerdo
tonta – não sei bem onde estou mas não estou bem
pouso os pés no tapete azul ao lado da cama
.
.
.
esfrego os olhos
esfrego a cara
esfrego o cabelo 
esfrego a roupa
arranho as bochechas
mordo os lábios
tapo os ouvidos
e deito as pernas saltitar
enxuto-me de tudo aquilo que a noite me trouxe
e preparo-me para o que o dia vai trazer
suspiro, respira fundo
(tem calma com as vozes estranhas…
faz amigas as paredes desconhecidas…
não dês luta às ordens vazias

e faz de conta que o sol brilha de igual)
.
e depois…
é sempre uma montanha russa
a diferença? 
é que tanto nos altos como nos baixos
se sente dor, vómitos e incredulidade
 “percebe.
está consciente.
está a sofrer…
recuperou o suficiente
[para me fazer doer]”
não estava à espera da confirmação do que sabia
e juro por tudo que era o que não queria
na tontura do calor da viagem que demora
sinto-me louca
.
e conto-lhe tudo pela primeira vez
ainda ninguém o tinha feito, caberia-me a mim
“fecha os olhos com força se…”
questões de rasteira, memórias inteiras

f*da-se
“tudo começou quando tu…”
contei tudo – não poupei nada
até cair ao colo dela, quando a vejo chorar
fico ali e sinto o coração a bater
tão certo, tão forte
que foi está ele a fazer?

fecho os olhos e imagino 
mil cenários diferentes
nenhum deles menos penoso
do que a necessidade de não compreender…

e, quando antes a notícia podia cair bem
agora cai no desespero
e com vergonha e sozinha
imagino formas de acabar…

não é afinal a missão do amor?
ajudar nos desejos
e nessas merdas todas feitas em promessas

porque quando as “melhores notícias” são puro terror
espera-se pelas piores – e já não sei o que é bom
ou mau
assim-assim
mediano
excelente ou péssimo

as medidas formais que conhecia
estão deformadas em espirais cortadas

como sou eu de uma forma tão deturpada?
que ninguém me veja!
.
.
.
.
mais uma noite….
normalmente gostaria da hora de dormir…
hoje tenho medo
e uma cama grande demais só para mim 
(se bem que comigo estão outras coisas 
que ocupam também muito espaço)
.
já sei – e aposto aqui
que as “melhores notícias” vão
dar-me os piores pesadelos
e amanhã, novamente
quando o corpo acordar
vou fazer de tudo para atrasar
o momento em que tenho de suspirar
“tem de ser…”
foda-se
 f*da-se

.
.
não me quero ver ou mostrar
quero dormir e deixar passar
.
.
vamos lá, vamos fingir
vamos desenhar ou inventar
ler ou procrastinar
por favor qualquer coisa
só quero despersonalizar

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