ihhhh… (papel)

acabo de acordar ainda estou a tremer.

é assim quando tenho sonhos da categoria “pesadelo” mesmo antes de acordar…

li uns livros sobre um psiquiatra que utiliza os casos reais dos seus pacientes para a escrita – uma não-ficção disfarçada por pseudónimos e detalhes alterados.

“qualquer parecença com a realidade é propositada e bem vinda”

reparei que este terapeuta dá particular atenção aos sonhos de quem se tenta resolver das alhadas da vida em consultórios…
por diversas ocasiões, são descritos os sonhos – na maior parte das vezes surreais e pouco ligados à realidade – e é feita uma interpretação que acaba por fazer sentido.

hoje, quando me sentei na cama pensei “vou pensar no que isto possa ter significado”…

rapidamente percebi que não há nada para desvendar – os meus sonhos são afirmações bastante óbvias e transparentes do que sinto.

é por isso que acordo tão abalada, a precisar de correr para a rua e levar com ar fresco na cara.

aliás, os meus pesadelos (não me recordo de um sonho agradável há anos) são a concentração de toda a angústia, tristeza, raiva e dor demonstradas por gestos extremos e até violentos 
– a distilação de tudo o que é feio que se concentra na imaginação de momentos em que grito e agrido.
não há nada para interpretar – quando muito posso perceber o quanto estou magoada pela dimensão violenta de cada assunto.

hoje sonhei com a procura de uma pessoa para lhe disparar uns chumbos na cara – nada de mais, lembro-me bem das armas de chumbinhos que havia na vizinhança quando era criança.

“estou com tanta raiva que vou encher aquilo e acertar-lhe na cara, não faz muito estrago mas vai doer” – e no sonho até tentei disparar uma vez contra mim e verificar que deixava marca.

pronto, lá fiz tempo (no sonho) para que essa pessoa aparecesse (como que por magia)…

depois não consegui evitar e gritei de dedo a apontar para a sua ponta do nariz tudo aquilo que sei que sinto mas que estou a tentar evitar dizer, na vida real, por mera conveniência do meu bem estar…

gritei tudo e a resposta era a que acredito ser a mesma se as acusações fossem feitas nesta realidade…

***
no livro, o sonho de uma mulher era um simbolismo da sua retracção da figura masculina embora carregada de desejo e de uma tentativa desesperada de não ficar só.
fez sentido, apesar de ter sido descrito um pesadelo completamente surreal, feito de ícones e simbologias que não se coadunam com este lado da realidade
***

no meu caso, a libertação acontece nos sonhos e percebo de forma clara tudo aquilo que sinto depois destes sobressaltos nocturnos.

qual interpretação… isto é o produto concentrado! não é necessária ajuda, interpretação, leitura ou navegação.
sou uma pessoa “descomplicada”… até nisto se nota.

agora vou passar o resto do dia com a noção de que tenho *alguma* raiva contida, que talvez com um par de estalos aliviasse… ou com uns gritos sobre coisas que incomodam (e muito)…

portanto, para além de não interpretar nada, vou passar o resto do dia a fingir que não me lembro o que não sei destas coisas da minha mente…

lá lá lá…

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