lume (proibido)

o pior é quando não nos reconhecemos.
e não nos lembramos de algum dia termos aceite mudar assim.

aos humores dos outros é fácil adaptar, é exterior
aos meus valores e lógicas que são agora outros
não sei como reagir

já passa algum tempo mas ainda passo alguns dias em silêncio
simplesmente a tentar perceber o que penso e sinto

porque é novo, estranho, diferente
porque fico chateada comigo própria por reagir de formas inadequadas mas que sinto naturais
porque é natural eu ficar a pairar sobre mim agora
e ter receio de viver

era outra pessoa…
depois não sei qual é o eu mais real… aquele que contém a essência
“o sentimento do eu” é-me apresentado em código
e nada mais resta senão aceitar – os rasgos de fúria, as misturas de choro e riso, as noites que irrompem pelo dia fora, os pesadelos que vivem no sol

entendo agora o que me era dito anteriormente
sobre ser “estranha”, “inconsistente”, “de impulsos”
estou estranha…
sou tão inconsistente que mete dó
tenho impulsos que já desisti de controlar
e não é que não goste… não é que… deixe de ser eu mas…

é diferente

preciso de uma linha condutora, uma realidade imutável que me ajude a sentir segura
no mínimo confortável
essa linha voou com o vento que arrastou as minhas certezas

se pego noutras linhas, rapidamente se desfazem na palma da mão
uma aqui, outra ali
nada seguro, nada… confortável…

e daí à irritabilidade não é um salto, é mesmo menos que um passo
a tranquilidade é atirada do peito fora
e cá dentro tudo treme sem ritmo

até os sonhos são diferentes
(os dois tipos de sonhos que se podem ter)
preto e branco
branco e preto

ganhei cinzentos, perdi outros
valorizo o silêncio como elixir de vida
e assim que nele mergulho
sinto-me só

porque é que tenho de estar em dois sítios ao mesmo tempo?
porque é que tenho de me esticar entre o aqui e o ali?
porque é que tenho de fazer toda uma ginástica ridícula para sentir uns segundos de tranquilidade…?

entre saltinhos, entre o preto e o branco, o branco e o preto, é onde está o sossego – o feliz, de sorriso
mas nunca saberei voar
nunca vou poder suspender as regras básicas da física
para conseguir manter-me entre os dois estados – oh, tranquila!

as melhores horas são aquelas em que não quero saber
de nada, de ninguém, das horas, do tempo
as melhores horas são aquelas em que não custa ter de falar
porque posso ficar calada e suspender, por magia, a vivência (mas não a existência)

entra-se assim num ciclo de vida que se baseia no existir…
é mais fácil! não é estranho! “aguenta-se”!
depois quero vida e viver
mas só tenho existido

preto e branco
branco e preto

viver existir

sol praia
chuva escuro

noites em branco
dias a dormir

noto que deixei de ter expressões – pelo menos não as mostro tanto
dizem-me que tenho sempre “cara séria”
tentam fazer-me rir
e eu não gosto que me obriguem a nada… embora agradeça, não me façam sentir culpada, por ter os lábios perfeitamente descansados num esboço de neutralidade
poucas são as vezes que sinto como se deve sentir
(ou como sabia sentir)

espero sempre reagir de certa forma a algo… e o meu corpo não arranca
ou as palavras saem diferentes
ou a minha cara mostra a emoção a que não estou habituada
“… desculpa”

desculpa porque eu própria não sei que merda se passa! desculpa porque nem eu sei porque não sorri! desculpa porque é melhor eu fechar-me até saber quem sou

mais vale…
mais vale chuva.
mais vale existir.

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