pessoas e essas coisas

terminei uma chamada telefónica depois de ter estado 2 minutos em silêncio. A ouvir silêncio do outro lado também – quando não há nada a dizer, esperam-se uns minutos até alguém gritar “isto não faz sentido, tchau!”

pelo menos é assim com uma ou duas pessoas.

e depois fiz um cappuccino porque esta noite fico em casa.

do outro lado – “aquilo dura até às 4 da manhã”
eu – “*risos nervosos*… aahh… logo vejo”

eu não era assim.
é estranho… estou muito bem com quem sou agora mas a mudança foi tão drástica e repentina (para não dizer violenta) que tenho receio de perder… alguma capacidade de … ter prazer? Não, não – não é isso.
Cresci rápido e a chutos e pontapés – embora mantenha muito daquilo que sempre fui (e vou ser), aquela veia de not giving a flying fuck acerca de nada está mais domada.

e não gosto muito disso…

há uns tempos (não demasiado passado) tinha o maior prazer em sair até o mais tarde possível. Para quem não gosta muito do sol e prefere a noite fazia todo o sentido.
sim, sempre me fez confusão ver o sol nascer e isso dava cabo da minha cabeça mas as noites a vadiar, literalmente, pelas ruas em conversas estranhas era bom…

agora? se acordo depois das 10 da manhã já acho que perdi o dia todo.

antes colocava cerca de 3 alarmes espalhados pela casa – criava armadilhas e enfiava pequenos relógios dentro de caixas com elásticos para me dar trabalho a abrir e acordar. Ou colocava despertadores noutra divisão da casa.
Cheguei até a testar outra forma de acordar – tinha um par de pequenos relógios de cabeceira e à noite, já entre os lençóis, fechava os olhos e atirava os relógios para onde quer que fosse (estava de olhos fechados para não os ver) para que, de manhã, andasse às voltas a tentar perceber de onde vinha o som até, eventualmente, acordar.

mas nada resultava.

certo dia acordei seriam umas 4 da tarde (nada incomum para mim). Acordei com o toque da campainha de casa e, meio abananada pelo susto arrastei-me até à porta.
era uma amiga e vizinha – esfreguei os olhos e cumprimentei-a.

ela perguntou-me se eu ainda estava a dormir
“sim, estava, mas entra…”
“… voltaste a dormir?”
“como assim?”
“… Mariana… eu estive cá de manhã…”
“*risos* está calada, não me assustes!”
“… Mariana, eu vim cá eram umas 10 da manhã, tu abriste-me a porta, ofereceste-me café – até disseste que gostavas muito da nova cor do meu cabelo!”
“… cala-te, a sério não inventes”

esperei que ela esboçasse um sorriso mas ela estava era preocupada.
e depois lembrei-me – aliás, tive uma recordação. Vi a minha mão passar pelas pontas do cabelo dela e não tinha sido durante essa visita da tarde.

I digress.

O que quero dizer é que… se antes fazia de tudo para me sentir feliz, agora faço de tudo para estar BEM.

Não me interessa o que têm a dizer sobre isso – para além de nunca me ter interessado, é sempre bom separar o trigo do joio

acredito que esta seja uma alteração de ordem evolutiva mas… o quão repentina foi!!

não estou habituada a acordar cedo.
a trabalhar bem e sentir-me (mais ou menos) estável – aliás, não gosto muito do conceito de estabilidade como objectivo de vida
não estou habituada a ter problemas de estômago e ter de ter cuidado com a alimentação
não estou habituada a ter dores porque está a chover
não estou habituada a ter que dizer que não porque tenho a) de dormir b) de ler c) de descansar d) de desenhar e) pensar nas coisas f) planear coisas – coisas chatas da vida
não estou habituada a gostar um bocadinho (pouco mesmo) mais do sol
não estou habituada a cair para o lado depois de uma porra de “amostra” de licor
não estou habituada a não saber o que dizer
não estou habituada ao silêncio
não estou habituada a uma cultura (de que só agora me apercebo pelo trabalho que tenho feito) que impinge a felicidade como se fosse obrigação e quem não a consiga está eternamente condenado a não ser nada
não estou habituada a dizer a minha idade
não estou habituada a pensar tanto no futuro e a fazer planos
não estou habituada a não ter o prazer nas coisas que gosto
não estou habituada a não me entusiasmar facilmente – algo que antes seria excitante e novo agora é recebido com um encolher de ombros

imagino que sejam prioridades, as culpadas

já não me fascina o que antes me fazia salivar
é tudo tão rudimentar…

preciso de substância, mais do que nunca, de conversas que não sejam de circunstância, de honestidade e mais nenhum “tudo bem? sim e tu?” enquanto passo na rua

acho que foi numa TEDTalk ou algo assim (sinceramente até posso ter lido, não me recordo bem) que alguém abordou a superficialidade da sociedade que vive em rede sem nunca se encontrar

no meio de outros conteúdos interessantes, falaram de como dois amigos ou conhecidos se encontram na rua e somente trocam uns “How are you?” para receberem o óbvio “Fine, thanks”.

quem disse isto tem a minha maior admiração (não sei quem é…) – basicamente endereçando o problema do quanto nós, enquanto sociedade de privilégios virtuais, tão facilmente e de forma contínua está em contacto sem nunca entrar em profundidade na vida do outro

acabamos assim, sozinhos mas acompanhados

porque para cada “Como estás?” a resposta por default é “Tudo bem, contigo?” – e não devia ser.

Para cada “How are you?” devia haver uma resposta sincera, honesta e vinda da emoção (e não do apropriado, da razão que acreditamos ser correcta) – “Não estou muito bem mas tu como estás?”.

agora que escrevo sobre isto lembro-me do orador ter falado sobre … ter sido um desconhecido que passou por ele numa ponte (de onde ele se ia atirar) que o salvou. Sem ele dar conta – o desconhecido rondou o sítio, a meio da noite, percebeu o que ia acontecer e quando já o rapaz não tinha os pés no beiral do lado exterior agarrou-o.

nenhum dos amigos dele se tinha preocupado antes – “Get it over with!” – “You have everything you need”…
and so on
pronto, ele dizia que realmente se podem criar conexões se formos mais honestos

no meu ponto de vista, não significa que iríamos ser todos um bando de beatas em queixumes da vida
não é para responder “Não, estou muito mal porque …. (lista)”
é simplesmente

responder a verdade para que o outro possa perceber … the underlying issues – não sei como o dizer em português

if you are honest about how are you feeling without the need to expand on the subject, the other will gather all the information needed in order to understand you better

é mais difícil em português (é sempre)

e é engraçado porque depois disso eu comecei a responder de forma mais honesta
se respondia “Não, sinto-me pessimamente”, das duas uma:
– a pessoa não percebia e rapidamente se afastava
– a pessoa tentava perceber o que era que me fazia sentir péssima

e então comecei a dizer, nos dias menos bons, “estou mais ou menos/não me sinto muito bem” e após a pergunta “então?” – respondo rapidamente “nada de especial, como estás tu?”

porque parece que ninguém compreende que podemos ser francamente honestos sem que seja necessário espremer a merda do assunto

podemos ser abertos e até livres para os queixumes (que se ficarem para nós fazem bem pior) sem criar problemas ou mau ambiente ou o que lhe queiram chamar

eu prefiro que alguém seja estupidamente honesto comigo – aliás não sei lidar com pessoas que não o sabem ser

se eu sei que há um assunto qualquer ali a espreitar eu vou dar conta
e posso não espremer mas faço de tudo para perceber

e se fossemos todos assim, se desligássemos o facebook e essas merdas todas de vez e

em vez de mandar-mos sms vamos telefonar
em vez de ir para um sítio atulhado de pessoas, vamos conversar para um sítio calmo e agradável
em vez de nos sentirmos mal por vermos alguém sofrer, vamos ajudar essa pessoa
em vez de andarmos com merdinhas para gritar “positividade”, vamos ser honestos e dizer que toda a gente pode estar muito bem ou muito mal
em vez de televisão, vamos ver antes as notícias principais noutros meios de comunicação (onde não há publicidade nem conteúdos deveras duvidosos) – só o que nos interessa
em vez de aceitarmos tudo que nos entra pelos ouvidos, olhos, nariz e boca, vamos seleccionar o que queremos que entre
em vez de nos calarmos para não parecer mal, vamos falar mais alto para rapidamente acabar os assuntos e problemas

pode parecer que tive um dia mau mas não, pelo contrário.

tive um dia agradável, acordei cedo, fiz tudo o que devia e agora vou

ler
beber o cappuccino (porra já deve estar frio)
fumar uma cigarrilha (é assim….. eu estou a tentar deixar de fumar de vez. e isto é horrível. da primeira vez foi fácil, numa semana passei de 2 maços para nada!… durou uns meses até uma coisa muito má ter acontecido)
esperar um certo entusiasmo pelas possibilidades da semana próxima mas sem ter de ficar “FELIZ” com isso
pode ser uma semana boa, não precisa de ser óptima

porque um dia de preguiça não é um dia desperdiçado

e de pensar, que há uns anos eu gritava “ODEIO DORMIR! Por mim eu não dormia nunca mais! É o maior desperdício de tempo! Porque é que o ser humano precisa disto tudo?! Um terço da vida a dormir?! Ha!”

agora, à noite, sinto-me aconchegada pelo escuro (e convidada por ele mas sempre em vista ao adormecer)

e sim, continuo a não perceber a inutilidade de dormir (não sou estúpida – eu sei bem o que é necessário, sei bem demais até) – não gosto é de imaginar o tempo de vida perdido em horas de sono. só isso.

gostava que o sono fosse um acto consciente – EU SEI – que, de olhos fechados, fosse possível termos a consciência de que estamos a dormir.

porque até dá jeito. é precisamente no momento em que me dou conta que “estou quase ador…me…”, nesse último rasgo consciente do dia, que me surgem as melhores ideias, fantasias, imagens.

como eu adorava prolongar esse momento (que nunca percebi quanto dura mas diria menos de um segundo – é o tempo do processamento de um pensamento) por uma noite inteira

restaurar o corpo enquanto me deleitava com os filmes, as imagens, as ideias.

e assim não me esquecia nunca daquilo que penso ser o mais importante – mas que surge sempre tarde demais para ser recordado

bem, parece-me que terei de aquecer o cappuccino. E não sei se vou ler.

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