Quando a calma é muita…

… a Mariana desconfia.

Calma, tranquilidade.
A capacidade de me deitar a ler um livro sem sentir o coração acelerado e a saltar do peito.
A capacidade de ter vontade de fazer coisas porque estou feliz, mas ser absolutamente equilibrada na velocidade (nem a correr, nem a caracol).
A capacidade de perceber que há tempo para tudo. Que tudo tem o seu tempo, também.
A capacidade de reservar tempo para mim, para os outros e para o trabalho. S-e-p-a-r-a-d-a-m-e-n-t-e.

Há cerca de dois verões (como quem diz, épocas de sol e calor) que não sentia os dias.
Cada conjunto de dias quentes e solarengos foram passados ou na miséria emocional ou fechada num espaço que não suportava, sem oportunidade sequer de apanhar sol.

estou a achar deveras engraçada a forma como estou a reagir perante este cenário – o de poder apreciar um bom dia!

mas não é só uma conquista minha – resolvi uns pequenos grandes problemas depois de meses à toa, a chorar e a rir, com calor e com frio – comecei o tratamento há uns dias.

não é que não seja uma pessoa de emoções fortes em todos os ângulos mas …
chorar porque vejo um peluche
rir porque estou a tentar não rir
ter frio e precisar de lareira com 20 graus
transpirar quando está a nevar por perto

afectam certamente a forma como a realidade é entendida.

Bem, estou então a apreciar os primeiros dias de verdadeira época quente da melhor forma – com muita mais clareza do que há umas semanas atrás.

ora agora, de hormonas mais certinhas e tratamento que o meu corpo há muito pedia encontro-me…
CALMA

e quão estranha é esta sensação! – por isso ainda a escrevo em maiúsculas

o coração bate de forma rítmica, certa e sem quase dar por ele…
não preciso de estar sempre a aspirar…
consigo não estar a pensar em 5 coisas ao mesmo tempo (é uma tortura nem conseguir ler pois sou interrompida por imagens e frases e coisas para fazer e “filmes” de todo o género)
estou com uma vontade estupidamente infantil de ir ali para o parque de estacionamento e deitar-me no asfalto ao sol.
há uns tempos era capaz de o fazer – mas agora não preciso.
em vez de telefonar, fui tratar de assuntos chatos aos próprios sítios. Nunca tenho paciência para essas coisas e a internet e telemóvel salvam-me mas… apeteceu-me!
apeteceu-me ir comprar as pilhas que precisava para uma máquina às 9 da manhã.
apeteceu-me ficar à porta do café por 10 minutos antes das 7 da manhã porque queria sair de casa e queria apanhar ar fresco – seguido de um bom café numa esplanada vazia

apeteceu-me mudar certos hábitos. e mudei (ok não vou aqui deixar de relevar a importância do quadro hormonal mais equilibrado…)

e agora apetece-me… aproveitar.

com tranquilidade.

Poderia adiantar trabalho hoje? Sim.
Mas não é de todo necessário.

depois vou vestir roupa mais fresca e sair para jantar.
apetece-me comer as coisas que gosto

alturas idas estão a voltar:

em que o equilíbrio era natural e não precisava de química ajustada,

em que os dias de sol não me assustavam

e que acordava de janela aberta para sentir o sol na cara.

e após o jantar, um filme, gelado (Carte D’Or Lemon Pie é o nome dele afinal) e uma cigarrilha de boa noite.

porque assim, bem, durmo descansada pois sei que acordo sem todas aquelas tonturas e tremores, de coração na boca e ouvidos tapados.

hoje acordei e… simplesmente acordei. Não precisei do ajuste, de esperar meia hora para me sentir bem.

posso fazer o que me apetecer agora.
mas se antes ficava petrificada e não fazia nada ou então fazia de tudo e entrava em parafuso agora? 
não sei.
Mas não me importo – e não é o não querer saber, é o facto de estar bem com esse facto.

Devo ler, ver um documentário, beber do meu smoothie caseiro…

há dias assim. E o que me levou a este foi uma miríade de razões

este verão vai ser diferente.

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