repito-me.

já disse que não suporto calor?

não suporto calor.

já disse que também não suporto o frio?

pois, isto está complicado… já não tenho aquelas semanas ou meses em que posso viver livremente como a porra de uma borboleta entre flores… ora estou enfiada e isolada em tantas camadas de roupa que faço inveja a qualquer astronauta ora nem sequer consigo vestir roupa e tenho de me manter em casa.

mas… hey! Não me queixo.

já disse que não suporto calor?

pois…

saí cedo hoje para fazer… coisas. e pensei “nada mau, parece-me que vai chover”.
aquela mania de já conhecermos o ar da cidade e de “sentirmos” como vai estar o tempo porque alguém uma vez nos disse que na zona um certo aroma é sinal de chuva…
e realmente estava bem na rua, só com um vestido e com a temperatura just right…
mas eram 8 da manhã…

pelas 14 ia sair novamente mas assim que abro a porta do prédio sinto que estou a abrir o forno para ver como estão as batatas – aquele momento de “ai vou perder a cara e a pele vai derreter” ao mesmo tempo que pensamos “como é que fazem quem tem de estar sempre a fazer isto? o dia todo? não fica com queimaduras por acumulação?”.

pronto. já que não era para ir à praia decidi ficar em casa.

primeiro porque tenho de trabalhar (bummer…)

depois porque…

já disse que não suporto calor?

agora ando a crescer relva. havia uma aposta no ar por piada – “a Mariana deixa morrer qualquer planta, até cactos”…

ai é? na varanda agora há relva. o problema é que está demasiado sufocante para a ir regar…

isto de ter uma varanda que queima os pés e o sítio onde se apoiam as mãos é uma grande bosta.

mas já a prever a falta de praia/piscina/água em grandes quantidades, já andei para aqui a pingar várias vezes seguidas depois de ter aquela sensação de afogamento deliciosa com água fria – é verdade.

nem estou a prestar muita atenção ao que devo realmente fazer – não mexer a perna, caminhar só com 2 canadianas e nada de estar em pé no geral… suponho que o dia devesse passar assim, tais como os próximos mas enquanto não precisar de me movimentar pela tracção da palma das mãos no chão “a gente vai continuar”.

e não é mau isto. Torna-se um refúgio para as visitas que também querem fugir do calor.

e logo agora que isto está tudo diferente tenho o maior dos gostos de me enfiar no papel de hostess!

o problema é que não suporto calor…

e claro, de manhã fui dar as minhas voltas e lembrei-me que não tinha colheres – não sei o que se passou mas durante 2 ou 3 anos foram desaparecendo até começar a comer iogurtes com garfos ou a bebê-los depois de os enfiar num shaker.

e vai daí, quem vai comprar colheres ao supermercado também compra uma piscina!

o imenso prazer que a água a entrar nos ouvidos me vai dar…

agora que tenho um espaço mais amplo livre estou a pensar cobri-lo para impermeabilização – assim posso estar a fugir do calor na água.

esplêndido.

mas a única que tinham era para bebés, duvido que dê para sentar o meu rabo naquilo…

still, é azul e posso ficar a olhar para os reflexos na água. Adoro os reflexos. De tudo, em geral – o brilho, a laminação da luz, a divisão reflectiva, os espelhos que não são só para observar porque o que fazem de melhor é mesmo transmitir.

e sou assim, feliz moderadamente.

a iniciar uma tarde (dia?) de um novo documentário (série de 7 episódios HBO – Who Killed Sister Cathy? – acho que é isto).

a ler algo que recomendo vivamente mesmo a quem não goste de fotografia, é um ensaio lindo de aprender – “O Auto-Retrato – Fotografia e Subjectivação” da Eduarda Neves.

acho que me chamou mais pelo trabalho que tenho feito… “me me me!”

deixei de conseguir suportar redes sociais. Infelizmente, algumas pessoas de peso na minha vida, anteriores críticos acérrimos de Facebook’s e da digitalização em geral (“o momento perde-se com a fotografia assim…”) – dos quais eu fazia também parte -, esses agora são os menos disponíveis no campo social REAL.

mas deveras activos em todas e quaisquer plataformas de contacto digital… blimey.

a hipocrisia é uma coisa mesmo baixa.

mas sorrio. pela primeira vez na vida sinto que tenho um lar – não propriamente que sinta a noção de lar doce lar como algo de novo mas desta vez é totalmente de acordo com as minhas regras.

e, claro, segundo as minhas regras significa que o meu próprio espaço é o mais confortável possível.

e é mesmo confortável, bolas! Não deveria ter ido tão longe…

só me falta um sofá e ALGUÉM QUE ME VENHA MONTAR UMA PRATELEIRA – vai ficar acima da minha cabeça e eu não me atrevo a tentar colocar aquilo onde pode provocar the crashing of my skull.

no fucking way. E aquilo é pesado… HELP.

Telefonei para uma lista de carpinteiros… e ninguém faz “esse tipo de serviço”… ora… o que é que eles fazem ao certo então?

e só para terminar, eu ando de tão bom humor (não assim BOM BOM mas… menos mau. confortável. nice. coiso e tal) que aturei uma velha 30 minutos ao telefone…
“boa tarde, carpintaria xxxx?”
“não minha querida, já não existe…”
“ah… não me saberá aconselhar…?”
“olhe… esta gente hoje em dia… não querem fazer nada! ou então, não podem! o meu marido, que deus o tenha….”

e pronto. fiquei a saber que ela foi operada há 10 anos mas ainda sofre de efeitos secundários.
que o filho mais velho não lhe liga nenhuma.
que as articulações são a primeira coisa a ir – infelizmente já sabia desta…
que tratou de uma pessoa acamada muitos anos até essa pessoa morrer… (e aí eu disse “pronto, finalmente acaba-se o sofrimento não é?” – e ela “Quê?? estava aqui tão bem perto de mim agora estou sozinha, preferia que…” e ai eu passei-me e despachei-a).

e pronto, tenho descoberto que sou uma enorme companheira de vida de pessoas idosas (não é este o único caso e tenho vários on going haha)…

admito que só fiquei aquele tempo todo ao telefone porque ela desatou a chorar… e eu fiquei a sentir-me mal para caralho

(sim, vou começar a dizer as palavras que quiser, lock your children’s computers and tablets).

porque começo a imaginar a solidão que a senhora pode sentir e o desamparo em geral… e como a percebo tão bem, em fases da vida tão diferentes mas de igual modo determinantes no caminho para a descoberta do que é importante.

ela, solitária porque já viveu o que tinha a vier…
eu, solitária porque tenho medo de viver o que vier…

não estava à espera desta conclusão……
….
….

é melhor eu ver os documentários senão entro aqui em downward spiral

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