rituais de morte

Hoje percebi o que (ainda) me faz confusão observar.

Há muitos rituais e rotinas ligadas a tudo quanto tem a ver com morte de alguém querido.

Já estive presente em funerais. De pessoas próximas somente (claro). E não sei se foi por terem sido debaixo de mau tempo, em locais escuros e frios, ou simplesmente pela porcaria das velas e flores, nunca tive intenção de perceber sequer os rituais que competem aos familiares após a morte de alguém.

Conheço muitas pessoas que, a cada dia 1 de Novembro, lá vão… e eu fico a pensar “Para quê?! Porquê?!”. E daí vem todo o pensamento sobre o lucro. O dinheiro estupidamente mal gasto em velas que são todas iguais (a vela vermelha de tampa dourada! Haha).

Não percebo e distancio-me desse tipo de coisas e costumes. Não me agrada saber que há pessoas próximas de mim para as quais isso é importante – porque, a meu ver, diz muito sobre a mente mais cínica ou frouxa.

Não havendo qualquer valor para mim, pelo contrário, abominando a forma como se lida com a morte neste país, eu não quero contribuir para as práticas pouco higiénicas e estupidamente caras para o bolso e para o ambiente.

Enterro? Tudo bem, se for natural. Sem caixão, sem missas, sem nada – devolver a matéria para outros bichinhos se alimentarem parece-me a melhor forma de “dar de volta”.

Anyway….

Desde 1999 que nunca fui capaz de ir a um determinado cemitério em busca de uma determinada localização. Não que não fosse capaz – tenho pernas para andar e sei onde é. Mas… o que ganhava eu com isso? Ver musgo e pedra não me parece um bom programa.

Para além do mais, já tinha sido tudo feito – e eu não tinha ido. Portanto está o assunto arrumado.

Mas desde esse ano que por várias vezes disse “Tenho de lá ir.”. Não sei de onde vem esse desabafo, mas desconfio que seja por ter sido um assunto pessimamente resolvido.

E hoje, após um choque daqueles valentes com a vida em si, pedi que me levassem ao tal cemitério. Ao musgo e à pedra.

Dia feio e nublado.

Ainda assim descobri algumas coisas.

Descobri que se colocassem a pessoa mais próxima de mim em vida num jazigo, eu não entrava lá. Fiquei parva ao aprender como se processa a entrada de mais uma pessoa, e como se afunda a que está lá à mais tempo.
Vi jazigos cheios de vida pela quantidade de flores e velas e fotografias ao centro. Para logo a seguir ver prateleiras de caixões. “E são revestidos a chumbo por dentro para os líquidos e assim não saírem”… Não conti o riso. Vejo que esta é a opção mais indicada para quem quer um naco de carne podre bem perto, mais ou menos preservado, sempre que as saudades apertarem.

Não percebo. Não vale a pena, não percebo. Ocupa espaço, custa dinheiro, não tem nada de simples ou apenas terreno e humano. Tem de construção, betão e armação.

Eu gosto muito do meu pequeno apartamento e sempre quis viver num espaço pequeno mas ficava pior que estragada se fosse intenção de alguém mandar-me para outro “T0” depois de eu expirar!
Já agora. Tantos animais com fome e iam guardar-me ali, para safe keeping, com paninhos de renda em cima como se tivessem frio à noite.

Está visto que nunca vou perceber. Também não percebo o enterro mas pronto… Tanta fanfarra de volta de um caixão bem quitado para depois ir ocupar um espaço onde as pessoas se sentem obrigadas e ir e voltar e chorar… Epá, não.

No entanto, vi uma luzinha. Eu cá estava a adorar (e estava a tornar melhor este dia que foi mesmo muito mau) passear pelo cemitério. Fazer as contas e perceber que idade cada morto tinha, ver fotografias descoloradas e imaginar que tipo de vida teve aquele indivíduo…

Mas antes de ir embora lembrei-me de 1999. Virei-me para ele e pedi “Deixa-me ir procurar…” – “Não vale a pena, já andei à procura e nunca dei com ele.” – “Então vamos dar uma volta…” – “O quê? Dar uma volta aqui? Achas que é uma caminhada “simpática”?” – “Ok então dá-me 5 minutos. Eu acho que sei onde é – mais ou menos”.

E dei com a campa.

A pedra escura pintalgada de cinzas estava imaculada. O nome completo do qual eu já não me lembrava… A data de nascimento que nunca me voltou à memória e a data de falecimento que eu nunca mais tinha conseguido tirar da cabeça.

Não sabia o que esperar de mim própria. Já lá vão quase 18 anos… Esperava ficar algo em choque e querer ir embora.
Mas não! Soube-me bem.

Vi que toda a pedra reluzente estava coberta de flores bem frescas e coloridas. De velas que não se apagam, de brinquedos e pequenas lembranças.

E fiquei feliz. Melhor ainda – calma.

Porque estava à espera de ver musgo na pedra.

Mas na pedra o que vi foi carinho. Dedicação. Uma longa caminhada de memórias representada por todos os pequenos artefactos que compunham uma imagem soturna com toques de cor e vivacidade.

E, de facto, aprendi. Aprendi que faz muito sentido para alguém continuar a ir lá e colocar lembranças de vida num espaço de morte. Não para mim…. quer dizer… se calhar também para mim.
Senão, não me tinha sentido algo “aliviada” por haver mais do que musgo na pedra.

E 18 anos depois cumpri um dever que sempre soube a direito. Da melhor forma – inesperada, claro.

E saí a cantar e a pensar no tempo que demora a fazer um paninho para cobrir um caixão de um homem com 2 metros de altura. 

É muita rendinha… Devem ser uma porrada de calos e dois updates na graduação dos óculos. Tudo isso para se ser colocada onde ninguém entra… FFS…

Leave a Reply

Your email address will not be published.