sentir saudades

é como comermos as nossas comidas preferidas durante dias e dias a fio sem nunca conseguir deixar de sentir fome, o estômago cheio, ainda assim, não é suficiente

é como termos um porta-chaves de onde se perdeu uma chave – não temos bem a certeza de qual foi e podia nem ser de algo importante mas falta ali alguma coisa

é como nos apetecer coisas doces mas sentirmos que todos os chocolates são salgados

é como nos perdemos numa viagem e não temos pontos de referência, bússola ou mapa – e é noite

é termos todos os nossos desejos e pedidos respondidos e mesmo assim, sentimos mágoa

é como quando damos conta que precisamos de lentes novas – está tudo turvo e a realidade parece distante

é como sentirmos a garganta fechada e os olhos a piscarem muitas vezes sem nunca soltarmos um soluço

é como sentirmos todo o corpo a ferver mas a zona do peito está frágil por ser de gelo

é como acreditarmos que tudo se resolveria facilmente

é como sonhar que as bolas rolam e ao acordar perceber que nunca vimos uma bola rolar

é como se tudo o que tivesse imagem ficasse também mudo e todo o silêncio é atulhado de sons estridentes

é como se sente a tontura de estar a uma grande altitude quando, de facto, estamos deitados e a gravidade nos empurra cada vez mais para baixo

é como quando deixamos de respirar por uns minutos – quando estamos prestes a precisar de uma golfada de ar e todo o corpo começa a estremecer pela falta de oxigénio. Só que nas saudades esse quasi inconsciência é constante e real

é como termos completado um puzzle de 3.000 peças para descobrir que sumiu uma durante o projecto

é como termos a certeza absoluta de que escrever aquela palavra ou dizer aquela frase (ou antes, não escrever ou dizer) vai provocar um alvoroço tal que a vida há-de cair para o sítio certo – mas ela continua sempre na mesma faixa, à mesma velocidade

é como termos conseguido comprar o exemplar numerado de um livro de uma edição de 5 só para descobrirmos mais tarde, após preguiçosas mas deliciosas páginas, que alguém quis um pouco da recordação e nós ficámos com um livro que tem a última página ausente por ter sido rasgada

é como deixarmos o nosso anel favorito na casa onde passámos férias – só passou a ser favorito no momento em que demos conta que estamos longe demais para o ir buscar

é como querermos gritar mas não sair um único som porque só conseguimos ouvir o bater no coração e um beep contínuo que cria um silêncio pautado – que continua sem ser som

é como a sensação de pins and needles durante todo o dia – num sítio específico do coração e outro na cabeça, perto de cada ouvido

é como termos a obrigação de terminar um texto mas partiu-se a tecla do ponto final

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