traço na perna

quando era pequena

ouvia as mágoas, de pessoas crescidas, homens de barba rija e mulheres de traço na perna,

“tudo o que quero vai chegar na minha altura, estou ansiosa”

e essas pessoas crescidas mostravam mágoa, uma infinita saudade por aquilo que nunca chegaram a ser. E não só,

ademais uma tristeza profunda, que embaciava os seus rostos com pingas de cinza, um viver pesado e de passos de gigante,

“tudo o que quero vai chegar na minha altura”

olhos turvados de quem demasiado já viu, ou das lágrimas escondidas para a pequena não ver,

“tudo o que quero vai chegar na minha altura, estou ansiosa”

falavam de relações desligadas, de beijos perdidos, de corações rachados e de sangue derramado,

“tudo o que quero vai chegar na minha altura”

sempre entre os trejeitos típicos de alguém que seja um homem de barba rija ou mulher de traço na perna.

e eu só queria a minha vez,

agora sou eu, mulher de traço na perna
de cigarro pendurado nos lábios enquanto olho para o abstracto
desentendida dessas relações perdidas e corações partidos – nunca impedimento para outra qualquer coisa
afogada na mágoa de quem sente como criança
de quem quer ou não mas com força
simples ou simplista (ainda não descobri)
baralhada nos desenrolares afoitos de uma pressa conveniente

“não acredito que é isto”

o cigarro cai e queima a perna

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