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recordo-me de lágrimas felizes – pelo menos, de carinho latente.

dos dias passados de cabelos ondulados ao vento, caracóis feitos ao final da tarde (o sal do mar encrespa os fios já por si levemente torcidos).

viagens no escuro do carro, pernas para o ar e cabeça pendurada fora do assento. O walkman de teclas gastas – play/pause era um gesto automático.

os sítios maravilhosamente ridículos por onde te obriguei a andar, em busca d’os sítios recônditos que tinha descoberto em livros ou revistas. Lembraste? O designer de mau humor que gritava com qualquer alma que não lhe acariciasse o ego. O seu cão de companhia era bem mais fiel aos clientes do que o rei de tudo o que era Vintage Chanel (com etiquetas deliciosas).

“É seda?” tentaste perguntar a medo. “Claro!” foi a resposta insolente – que questão atroz para quem tem o Rei na Barriga.

ainda aqui tenho, o lenço esvoaçante, que imagino vezes muitas ao redor de pescoços bem delineados de senhoras com cigarros longos e finos, lábios vermelho-escarlate, meias de vidro com a costura atrás e um chapéu de abas largas para esconder os olhos de qualquer homem que, na sua ingenuidade, sequer imaginasse dizer um olá.

as viagens!… os mafiosos de armas à cintura que não esconderam o espanto quando nos viram irromper pela “discoteca” falando uma língua estranha, rapidamente trocando as faixas musicais que acompanham as strippers por títulos musicais mais… generalistas. A diversão que – não foi – tentar encontrar um sofá para sentar com o menor número de manchas possível. E de repente o asiático com ar de assassino, também ele dançava e ria, completamente absorto do seu real papel naquela estapafúrdia noite tardia, com as acompanhantes a olhar, à espera do sinal para voltar. Lembraste? Assim que decidimos voltar para o hotel (manchado por estilhaços de vidros quebrados a qualquer esquina), a cortina de veludo de cheiro imundo e cor púrpura caiu sobre nós e a música rapidamente se tornou um longo gemido, com um ritmo repleto de amores perdidos e desencontros propositados.

as viagens… lembraste? A cor branca, virginal, das areias de praia tropical. A caminhada longa que se fazia de água pelos joelhos, turquesa, um espantoso tom de azul transparente, límpido, estupidamente quente. Jamais esquecerei as voltas que me deu o cérebro – encontrar um plano mais claro que o próprio céu.

até hoje essa sensação de um outro-mundo me absorve. Qualquer chão de cor branca é usurpado por breves instantes numa tentativa (frustrada) de reencontrar um desequilíbrio desconcertante de harmonioso.

haverá mais praias que viram o mundo ao contrário, mais água que me absolva de lágrimas gastas por pouco.

(só a água pode limpar a memória do mundo sujo, prontificando a alma para outro dia).

até ao dia do reencontro do mundo invertido, continuarei a convertê-lo eu mesma, pelo prisma rachado do cansaço negado de quem deseja ver o caminho em frente desimpedido.

e nessas viagens, nestas e nas que virão, o teu riso ecoa, como recordação das coisas simples que injectam cor – e vida – ao impuro castelo de paredes gastas que são todas as cidades onde acontecem as coisas normais.

porque qualquer mapa e guia turístico não revela mais do que muros – novos para uns, roboticamente percorridos por outros -, acinzentados pela tua ausência ou pela minha saudade.

respiro fundo e com toda a força que me ensinaste poder evocar, pinto o chão de branco e o céu de azul escuro e, num piscar de olhos por onde se escapa uma lágrima, estou lá outra vez. No mundo perfeito, invertido.

à espera de me rir.

vamos?

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