*entre

duas vivências
escuro e claro
ou até preto e branco
talvez não tão simples

é na penumbra – digamos assim, suavizando – que a emoção se exalta mais, tenho vindo a notar.

foi no escuro que me encostei contra a parede e gritei; na incerteza do fecho impenetrável da porta mesmo ali ao lado.

já não saberia distinguir realidade do sonho, uma mistura de ambos… o escuro permitiu visualizar com todo o detalhe as feições desengonçadas (embora realistas) de quem seria a Morte.

não senti os lençóis, nem mesmo o vestido longo que me afagava. Contra a parede dei conta de mim a proteger a cara com o antebraço direito de um ataque rápido e letal daquilo que era o final.

lembro-me sim de olhar para a porta rapidamente e afigurá-la entreaberta, corri para a tentar fechar, de pés a escorregar no soalho sempre demasiado limpo.

corri para a porta e continuei encostada simultaneamente, a tentar não morrer.

as colunas do computador ainda a ecoar o arquivo de um podcast no meu terror de ver a Morte cair em mim, agarrada não sei bem onde, a gritar entre o sono e o alerta. “bloodied… to a pulp… brick wall… hands…”

(honest mistake)

após correr na minha imaginação e voltar para a posição de defesa, só me recordo de atirar com todos os cobertores para o chão.

a Morte já não estava a transpirar em cima de mim, com uma arma brilhante que tanto podia disparar como cortar.

estava eu, às 3 da manhã, no tapete do quarto a pensar “tenho de ir verificar a merda da porta e desligar as colunas”.

“isto não é vida”, também.

“click clack click clack”, 2 voltas extra aos cadeados que me protegem do mundo sobre o qual não tenho qualquer controlo.

sonhos lúcidos, dizem eles. É fantástico, dizem eles. Gente louca em todo o lado! Gente louca!

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