LFO

DVT / Acute PE / RV HF / Hypoxia



hoje estou verdadeiramente assustada. Pela primeira vez. Sou uma pessoa mais contente com a vida desde há uns meses mas esta noite está a ser muito difícil…

perdi o medo de morrer porque foi tão confortável… recordo-me vagamente de uma alegria ridícula. Tinha a noção de estar a perder a consciência mas… não quis saber. As vantagens da falta de oxigénio no cérebro.

acho que preciso de escrever sobre isto porque me sinto irremediavelmente só e sem qualquer apoio. E é essa a única merda que me faz chorar esta noite.

estou feliz, contente. Mas posso chorar quando reparo que o meu corpo e mente não são os mesmos. 

estou feliz, contente. Mas posso chorar quando sinto as sequelas – quando não consigo fazer tarefas simples, quando me sinto BURRA, quando não consigo ler, quando custa a respirar, quando o coração dispara sem razão, quando noto que as coisas que me fazem quem sou (e gosto de ser) estão para sempre alteradas…

foda-se.

não sou eu quando atiro a comida para o lixo e a embalagem para o microondas. Não sou eu quando estou a ler e dou conta que não me recordo de *nada* do que li até esse momento. Não sou eu quando estou uma hora em pé e começo a desfalecer. Não sou eu quando me dói o peito e tenho de avaliar o perigo. Não sou eu quando o ar fresco não é suficiente para o fôlego. Não sou eu quando escrevo e não me lembro sobre o que escrevi. Não sou eu quando fico horas a tentar perceber uma premissa ou lógica e me sinto estúpida.

foda-se.

e não é justo que me tentem arrastar para situações que me põem em perigo de novo. Não é justo que eu “pareça bem e activa, cooperante e inteligente” e logo a seguir me esqueço de onde estou ou o que estou a fazer. Não é justo que pegue na merda dos medicamentos e os enfie no bolso em vez de os enfiar na boca.

edit 1 – e porque é que todos os médicos me dizem “é incrível ainda estares cá” mas não querem saber de todo se “estou cá e bem” ou se “estou cá só por estar e agora vai ser uma merda“…

estou a dar cabo de mim mas esta sou eu. Burra, sem memória, sem lógica nem sentido, confusa, perdida, fraca. Sempre forte e com coragem (demais) mas há limites – sobretudo quando se perdem capacidades, cognição, ou o corpo se comporta como se tivesse mais meio século em cima.

não é que não seja “justo”, é aborrecido, é fodido, é estúpido e perco a vontade de continuar a ser forte se for para ser assim para sempre.

assim prefiro voltar a ser confortável e feliz, a agarrar os lençóis na maca e a dizer aos médicos “eu estou bem… deixem-me dormir, só quero dormir. Está muito frio e cheira a incenso…” com um sorriso no rosto e a certeza nublada de que algo errado estava a acontecer sem me preocupar minimamente com mais nada deste mundo…

foda-se.

eu não estou bem, não me deixem dormir – está calor e não me cheira a nada.




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