*o baú amarelo/buracos

a determinação reserva-se para o desejo.

as peças bonitas cuja presença nos faz esquecer sermos mortais. Peças, linhas – são tudo, e todos.

nega-se a determinação para actuar quando somos varridos de encontro a uma barreira apinhada de espigos e dedadas marcadas em óleo.

decorrem dias mas mais importantes, noites. Escuro outrora calmante, apela a um fôlego de esforço que nem o próprio sol conseguiria convencer.

contra os espigos, o corpo inicia uma batalha – de vontades e prioridades. As feridas abrem mais, metal abre caminho entre carne, sangue. A dor desaparece em poucos momentos… daí a pouco, e nas noites seguintes, só o sabor do sangue (tão rico por estas alturas) me permite entender que estou, de facto, a lutar. Na impossibilidade de uma ausência, um súbito nevoeiro que me levasse até onde desconheço, permaneço ferida. E qual não foi a surpresa quando num último choque o músculo mais rijo fez tombar todos os picos?

não é a determinação, é a lotaria do acaso (nunca o sendo totalmente pois é circundado por toda a minha história).

ainda assim, surpreendente. As ideias, as imagens, as cores tornam-se mais vívidas – em contraponto ao físico, cansado e incapaz de dar por finalizada a luta que já há muito quebrou a barreira mas continua tenso.

dou por mim a tentar baixar os ombros conscientemente. Reparo na perna que baloiça para cima e para baixo num ritmo próprio e grito para mim mesma “Pára com essa merda!”. Reparo então no peito e no batimento frenético – projecta-me para um fog do qual não me liberto, e fog é sempre mais perigoso que nevoeiro!

criatura de hábitos (nunca realmente em rotinas), afogo-me em água.
é mais seguro, fácil e eficaz. Fico surpreendida com os minutos que consigo passar debaixo daquela barreira que será sempre o meu sítio preferido. O coração bate, o peito pede oxigénio – basta apenas convencer o corpo. Dizer-lhe num sussurro “apenas sentes todo o corpo a pulsar por ser a perfeita desculpa para fugir do silêncio pouco confortável que se passa por estes momentos”…

e deixo-me estar. Depois de sentir que o coração quase salta fora, é mais fácil permanecer um pouco mais debaixo de água… e mais… e mais…

é na água que se mostram as imagens escondidas pelo ímpeto de lutar.

à minha esquerda, o baú amarelo. À minha direita, os buracos negros.

nunca os tinha conectado nem tão pouco apercebido da sua relação.

o baú amarelo foi sempre o eleito para esconder tudo o que me faz sorrir. Já viajou, encontrou casas novas mas resolveu-se juntar a outros objectos rejeitados pela memória mas afagados pelo carinho.

o baú era de uma madeira de tom suave e lembro-me vividamente do som ao fechar e abrir… terá a mesma idade que o meu corpo? Creio que será por perto…

quando o baú se abre sobressaltam as amálgamas de texturas, choques de cores e um riso de criança ecoa lá por perto. Vários seres humanos lindos aceitaram deixar a sua marca no meu baú. Foi no seu interior, no lado escondido, que aprendi as contas de multiplicar. Diversos rabiscos em giz, marcadores e tintas servem como memorial para uma alegria que sei perdida mas não irrecuperável. Escritos por muitas pessoas de quem gostei como quem gosta muito, e por outras pessoas que já nem sequer respiram há muitos anos…

sinto uma vaga tristeza, nostalgia talvez que me assola, ainda debaixo de água – “Preciso de o ir buscar para perto de mim”. As pinceladas do amarelo garrido tentaram disfarçar as mágoas que o marcam mas sempre evitei correr tinta sobre essas… memórias e momentos que se transformam em sorrisos – ou pelo menos numa cor que não seja em escala de cinzas…

do outro lado (direito), buracos negros. Uns maiores, outros mais portáteis – o que não significa que sejam menos profundos ou capazes.

debaixo de água, sempre e ainda, ao ouvir o coração pulsar vejo os buracos negros e estes encarregam-se de sobrevoar para a esquerda e entrar no baú amarelo… fico estupefacta. Qual fenómeno cosmológico de vontade própria, perco qualquer controlo sobre eles. E sei nitidamente (embora nunca o irei admitir) o que cada buraco significa. Cada um é uma entidade em si que encapsula fragmentos da minha vida, todos eles diferentes mas com uma linha rasa que os alcança transversalmente – carinho? (julgo).

o baú abre-se e os buracos maiores apressam-se para ocupar o seu lugar no quentinho da nostalgia – pois tudo o que desaparece ou faz desaparecer precisa de algum amor.

agora, já quase sem reservas nos pulmões e com os trejeitos incontroláveis na barriga do corpo que já não é enganado pela mente, rasgo pela superfície da água morna e volto a respirar.

uma respiração pouco controlada – suficiente.

já não há imagens, nem amarelo. Sobram as percepções de saber e sentir exactamente tudo o que lutei para esquecer, fingir que não me apoquenta.

surpresa das surpresas, sobram dois buracos negros à direita – e com a maior das sinceridades digo que não sei porque não foram para o baú. E aí entendo, são estes que sobram, os que vivem comigo, os buracos negros que por pouco parecem nebulosas (porque o vazio nas nebulosas é tão vasto quanto a negada existência nos buracos). Decido aí, de água ainda a escorrer pelo cabelo e de sopro que atira gotas para o peito, que são meus. Só meus. Tal como o baú.

e pergunto “Quantos buracos negros cabem num baú de memórias?”.
não sei a resposta mas por agora sei isto – “não os suficientes“.

***

a água salvou-me, mais uma vez. Os ecos da realidade debaixo da superfície soam à melodia mais perfeita que poderia ser criada!

um dia talvez por lá fique, é mais seguro e confortável. Um dia, quando deixar de respirar, vou poder ser sempre água – sem ecos, é certo. Sem a certeza de ser feliz mas finalmente encerrando capítulos… ou buracos negros…

Leave a Reply

Your email address will not be published.