reflexão

irei continuamente utilizar a reflexão da vontade enquanto expressão de um desejo. Não sinto outra forma livre de ser.

a vontade do querer nega qualquer opção de escolha ou livre arbítrio.

sempre considerei estar um pouco acima da submissão inconsciente (depois consciente) do desejo. É com uma incredulidade brutal (e este é um eufemismo) que combato este formato estúpido, irracional e incontrolável de querer.

não é um sentido por mim procurado e muito menos optado.

tenho inveja, um ciúme avassalador e a certo ponto mortal, do desejo enquanto expressão de liberdade. É-me incógnita e estranha a noção de entrega a uma emoção curada.

desprezo todo o desejo que saltita de peles em peles, de olhos em olhos, cobrindo um novo querer com a casualidade do atirar de dados numa mesa.

os meus dados estão viciados. Sobra já algum tempo para reflectir sobre a minha impotência face às emoções igualmente destrutivas e repletas de serenidade.

nego sempre o peso que recai em tudo o que faço, remanescente da ausência.

sou óptima a negar toda a verdade que me transforme num volátil alvo emocional – tanto quanto físico. Não falar sobre torna-se insuficiente face à permanente e visível (a olhos atentos) marca de qualquer resquício do desejo. E como dar a volta à premissa? Silêncio. Ódio manipulado. Ser alguém diferente – intrusiva, repetidamente, até ao momento esperado dos estilhaços serem feitos em pó pela súbito mas esperado grito de revolta.

não me respeito ao ponto de me negar o ódio. Pode ser que seja uma consideração prestável da minha parte, uma resolução que recorre ao jogo sujo. Pode ser que na face d’um suposto desrespeito já não tenha de flectir os joelhos e recolher todos os pedaços de mim que ficam sempre pela sombra.

até lá, negarei. Todo e qualquer desejo é determinante em todas as outras vontades – superficiais ou intrínsecas às emoções.

e essa é a conclusão de reflexões que preferia não ter descoberto.

serei escrava desta minha vontade, interpretem-me como quiserem mas por favor não me perguntem.

porquê, como, de que forma? Não saberei. A minha aventura no reino do não-querer-o-que-quero não oferece respostas, só espaço vazio.

e de tão vazio pesa. Quem diria que o vácuo dos buracos negros, onde a matéria desaparece, é justamente semelhante à respiração (pouco profunda) cortada pelo aperto da memória da pele?

mantenho-a assim. Shallow breathing. A percepção do eu enquanto corpo é a última consciência de que necessito. A respiração não pode transmitir nada que eu não queira espelhar.

negarei.

julguei em tempos que este meu desejo seria patológico, não só irracional como doentio… poderia ser mais fácil jogar com esses dados. Mas aos poucos, e enquanto me permito evadir nas memórias que são tão presentes quanto a chuva que agora cai, admito uma falta de controlo que se deve exclusivamente a um universo biológico – verdadeiro, claro está.

e o desejo enquanto verdade é tão real quanto a pele. A minha está sempre fria. Escorregadia mas fria. E qualquer estímulo atira os meus sentidos para uma loucura presencial de onde não posso fugir – está em MIM!

respiro pouco, nem o peito se move. Respiro pouco, não sinto o seu fluxo. Respiro pouco e há cada vez menos espaço em mim. Para carregar tanto desejo.

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