doce amargura

a do cumprimento da saudade que não magoa

bate à porta levemente, com receio de me acordar.
– posso?
– … [suspiro] sim… mas que seja uma visita rápida.

movo as pernas lentamente e no corredor respiro mais fundo – uns segundos de quasi-meditação planeados.

ela, entra sem primeiro espreitar para dentro. Boa surpresa – ela tinha por costume entrar bruscamente como se o espaço fosse todo dela e carregada de coisas para dizer aos gritos.

noto-a calma. Por comparação, claro. Ao invés de ser atirada contra a parede para a deixar passar, ela hesita. Indico que pode entrar com um gesto da mão – “avança”.

ela pede desculpa por incomodar – eu agradeço em vez de cair nos “não é preciso pedir desculpa, está tudo bem” que, em qualquer circumstância, são sempre mentira. Mas qualquer tipo de mentira já não é para mim – até as ditas “brancas”, que por serem tantas acabam por formar a maior mentira de todas.

ela entra a medo e olha em volta – “estás sozinha?” – “sim, tenho um bocadinho para ti agora” e deixo que o meu sorriso se mostre. “Não vou demorar muito tempo, só vim dizer olá e perguntar se ainda te lembras de mim”. Fico ofendida… claro que lembro! Que a minha abstenção de evidente e forte emoção não seja sinal de perda de memória propositada!

– “tudo bem, vamos?”, pergunto.

ela senta-se ao meu lado, no sofá, pois a saudade não precisa de cerimónias – nem cadeiras. Às vezes até nos deitamos juntas e falamos para o ar.

– “obrigada… por acaso este espaço tem sido cada vez mais confortável para mim” diz-me ela. Respondo que compreendo – tenho feito por isso. Precisamente para a acomodar. “Mas não julgues que é por criar tempo e espaço para ti que quero retornar a longas conversas… não preciso de tantas palavras mas não me importo que estejas por aqui ocasionalmente” – saiu-me um suspiro.

acho que ela se sentiu incomodada pelo suspiro mas olhou para baixo. Ela entende.

as palavras não existem. De forma audível isto é. Com ela nunca foi preciso verbalizar – a sua presença conecta-nos, falamos telepaticamente, através da simples existência próxima.

deixo-a falar enquanto a vejo confortável e de olhos fechados. Normalmente estaria fixada no seu olhar e a absorver a informação despejada com uma concentração de falcão. Não desta vez… recolho palavras-chave, expressões, pequenos laivos de emoções – o suficiente para não encher o meu corpo mas reconhecendo o essencial.

fixo o olhar na parede e passados poucos segundos dou-me conta que a minha mente já voa para outros sonhos, noto-me distraída. Penso “estranho… não costuma acontecer”. Ela ouve, claro. São conversas internas. “Não te preocupes, não levo a mal – e sorri para mim. “Óptimo, não tenho forma de controlar estas instâncias e tinha receio que levasses a mal…”, respondo.

ela fala-me de tudo um pouco – como todas as visitas anteriores. As emoções começam a ficar um pouco mais fortes mas somente suficientes para as percepcionar. Raiva, confusão, alegria, paz, motivação. Não interferem demasiado, ocupam 1/100 do que costumavam ocupar na caixinha do coração dedicada à alma e saudades.

“não leves a mal” digo baixinho quando noto que ela se admira pela minha calma “não é que não sejas tão ou mais importante que sempre foste mas por agora o corpo aceita-te melhor”. Ela sorri com um laivo de vergonha – talvez por se sentir um pouco inferior? Não é a minha finalidade mas não irei conseguir mentir.

reclino-me para trás, evito distracções, fecho os olhos – não tenho muito mais tempo.

cai uma lágrima grande e outra mais pequena. Mordo o lábio e a língua. O maxilar fecha com força e decide-se imóvel.

“obrigada” é a única palavra que partilho após uns bons cinco minutos de conversa. “Precisava de me lembrar – mais que isso, de saber que posso lembrar sem gritar contigo…”. Aí, ela mostra notoriamente o orgulho. “Quem agradece sou eu!… tenho um trabalho a fazer, como sabes. Não deve ser agradável, imagino. Sorte a minha de ser saudade pois a saudade não tem visitas”. Concordo ao acenar com a cabeça.

ela levanta-se bruscamente, com energia – “bem então… está tudo, certo?” – “da minha parte sim, e vejo que para ti também”. Ela olha para baixo num momento em que o seu sorriso cai. “O que disse de errado?” penso para mim. “Nada” ela responde. “É de mim, é estranho quando as pessoas me recebem de forma diferente. Nunca sei ao certo o que esperar e por mais infinita que seja a minha existência creio que vou sempre ser surpreendida”. “Não é preciso ser saudade para sentir tanta surpresa – a minha é constante!”.

ela olha para mim nos olhos e finalmente sorri de forma convincente. “Bom, foi bom ver-te de novo”.

“igualmente”

“irei voltar não daqui a muito tempo… estou a par do que aí vem”

“certo. Já tinha pensado nisso e até estava admirada pelo teu atraso”. Ela ri-se. “Não é bem um atraso… estou a tirar umas férias merecidas. Ser saudade é bem pesado!”

“óptimo, fazes bem. E assim também tenho algum tempo para perceber como melhor te receber na próxima visita” – “não te preocupes, é sempre bom” – “mesmo que às vezes mostre, claramente creio eu, o desagrado ao abrir a porta arrastando-me a ela?” – “sim… não és a primeira e não serás a última. É normal. Já estou habituada. As pessoas não correm para mim” e solta uma gargalhada.

rio-me com ela. Estamos bem dispostas.

caminhamos pelo mesmo corredor. Chegadas perto da porta não evito um pequeno salto para dar e receber um abraço – ela corresponde. Sorrimos as duas.

rodo a chave e abro a porta lentamente – ao invés do que era costume. “Está agradável lá fora, aproveita!” aviso-a.

“vou tentar… ainda tenho mais visitas para fazer hoje” – “caminha ao sol, evita as sombras”.

“irei evitar. Obrigada pelo conselho… e por me deixares entrar” – “Ora essa… posso rebolar os olhos mas sei que entendes o que a tua visita significa para mim…” – “desculpa por essa parte mas tenho de cumprir trabalho…” – “eu sei, eu sei, não te justifiques… se precisares de alguma coisa por favor avisa” – “já aconteceu antes – e avisei, não avisei?”. Eu sorrio. “Sim, claro, esqueci-me dessa vez”.

ela passa para o exterior e fica ao sol. Olha para cima e fixa os olhos no céu “podia ser pior!” disse num suspiro aliviado.

“podia ser sempre pior”, respondo amigavelmente “até breve”.

vejo-a deslizar para a distância enquanto fico encostada à porta aberta. A pensar. Sem partilhar o que penso.

olho para cima e vejo uma única nuvem que diz olá.

volto para dentro. Feito.

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