1 ano e mais de meio

Há mais de ano e meio que, todos os dias sem excepção e quase sempre me apanhando desprevenida, sinto que levo um murro no estômago. 
Há mais de ano e meio que ainda pego no telemóvel para, logo a seguir, o pousar em silêncio. 
Há mais de ano e meio que, por mais que me distraia, começam a cair lágrimas sem eu as conseguir controlar ou dizer-lhes “não”. 

Há mais de ano e meio que, nalgum ponto ao longo do dia, o meu coração bate de forma irregular e a respiração é afectada. 
Há mais de um ano e meio que não consigo ouvir certas músicas sem entrar numa espiral escura.
Há mais de ano e meio que faço replay de coisas que não devo – sem querer, mas faço.
Há mais de ano e meio que a casa já não é lar.
Há mais de ano e meio que espero que a noite caia porque o Sol me afecta e sinto-me muito mais confortável quando chega a hora de dormir.
Há mais de ano e meio que já me habituei a estar assim.
Há mais de ano e meio que procuro e encontro distrações sem nunca me conseguir realmente distrair.
Há mais de ano e meio que penso que as coisas só podem piorar porque as coisas boas da vida são estupidamente mundanas e fúteis.
Há mais de ano e meio que deixei de acreditar nas pessoas e na proximidade.
Há mais de ano e meio que tenho dificuldade em conjugar certos verbos – usar o tempo presente é um engano, usar o tempo passado não é correcto.
Há mais de ano e meio que tudo o que dói, dói de forma diferente porque não devia ter razões para me queixar.
Há mais de ano e meio comecei a perceber como funciona o Mundo – e não gostei.
Há mais de ano e meio que começo a pensar que vou ser assim para sempre – todos os dias com o coração a saltar, todos os dias com o nó na garganta, todos os dias a desvalorizar tudo o que há de bom porque o que há de mau consegue, seguramente, ultrapassar isso.
Não é fácil e ninguém imagina o que é viver assim, todos os dias, há mais de ano e meio.
Porque sorrio, porque rio, porque estou viva.
Não se deixem enganar porque, a alguma altura do dia, sentirei o murro no estômago – como se fosse a primeira vez.

– B

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