atribulado II

***

C deixou-se levar nos braços de D por mais umas quantas ruelas no escuro.

Na verdade, aquele era um escuro diferente – ninguém sabia dizer se eram nuvens de tempestade que se aproximavam ou se era, afinal, de noite. Pelos vistos não importava.

D estava no mesmo “barco” que C. Conheciam-se desde sempre e apoiavam-se mutuamente em situações mais difíceis. Sabiam todos os segredos uma da outra.

D – “Vamos agora caminhar um bocado para te distraíres, eu tenho de ir ter com a G”

C – “Onde é que ela está?” – perguntava como se soubesse quem era a G. Não fazia ideia!

D – “Vamos caminhando… enquanto te acalmas… ela está no cemitério, vai lá pôr flores para a filha da irmã – sabes, a miúda que morreu.”

A C lembrava-se disso. Tinha uma ideia clara sobre as imagens da morte da miúda. Não sabia sequer o nome dela mas tinha visto as fotografias de quando tudo aconteceu.

Pegou nas fotografias e observou-as, uma a uma, enquanto caminhava meio apoiada em D. A D nem deu conta que ela tinha feito aparecer as fotografias do nada.

Cada foto tinha sido tirada por uma máquina de rolo. Poderia descrever-se o conjunto como frames escuras em toda a volta com um raio de luz no centro que mostrava o que se passava.
Viu a primeira com cuidado – a rapariga estava a dormir e quem a matou (não dava para perceber se era homem ou mulher) estava a brincar com a máquina para mostrar a vítima.

Na segunda fotografia, via-se a criança ainda a dormir. E a cara de quem a matou – mas só se via parte da cara, onde o dedo em frente aos lábios fazia sinal a quem sacava as fotografias para não fazer barulho.

Era um tanto estranho – para além do flash parecer mais um foco fino de lanterna, a criança dormia com os pais. No entanto, sabia que ninguém tinha dado pelo sucedido até de manhã. Como era possível?! Um casal de pessoas a brincarem com a máquina fotográfica e o corpo de uma criança antes de a matarem. E os pais ali, na mesma cama – nalgumas frames via-se um corpo mais distante.

Terceira fotografia. A criança estava de olhos abertos e ensonados mas sorria para uma mulher (aqui sim, percebia-se) que se sentava em cima dela e fazia caretas. De novo, tudo escuro excepto na face da criança. A fotografia tinha sido tirada a centímetros da cara dela!

Quarta fotografia. Via-se agora uma mão a tapar a boca da miúda mas os olhos dela não mostravam qualquer medo.

Quinta foto… “Chegámos. Deixa-me ver onde está a G”.

De repente, C olha para a frente e estava à entrada de um cemitério. Óptimo! Mesmo aquilo que precisava – pensou.

Pelo menos era bonito e todo em relvado. C lá faria o favor de acompanhar uma desconhecida à campa da sua sobrinha. E não estranhou esta linha de pensamento.

G estava debaixo de uns ramos de uma árvore que quase lhe cobriam a cara. De saia preta e t-shirt verde, apoiava-se num guarda-chuva.
(Porque ninguém sabia se ia chover ou se era só a noite que tinha caído.)

A G estava cansada e rapidamente apontou com o guarda-chuva para a distância “Eu já fui ver em todo o lado! Não encontro! O que se passa aqui?!”

C resmungou um pouco antes de responder “Desculpa mas não sabes que hoje é o dia de mudar?”

G respondeu “Opá eu pensei nisso mas de qualquer forma não encontro!”.

C olhou em volta e viu exactamente o que G procurava “Olha ali! Não percebes? Quando é dia de mudar o layout eles tiram os caixões para fora, agora tens de ir ali e ver qual caixão é o da miúda!”.

Caminharam as três de encontro a uma cena algo inesperada – 5 caixões amontoados como lenha em pirâmide.

Dois eram claramente de adultos mas os dois mais pequenos eram iguaizinhos!

G aproximou-se e encolheu os ombros. Tinha de espreitar para ver qual era o certo.

Abriu o primeiro caixão mais pequeno e espreitou. C também e assim que a tampa foi levantada, uma rapariga de cabelos longos que estava sentada a brincar olhou para cima e gritou “Deixem-me em paz!” e puxou a tampa com toda a força.

Bem, não era suposto incomodar ninguém mas pelo menos já sabiam onde estava a rapariga.

G abriu o outro caixão que estava torto e caía sobre um dos lados – a criança estava lá dentro a brincar com outra pessoa.

G estendeu-lhe o ramo de flores, ela aceitou educadamente e pousou-o no que parecia um espaço grande demais para o que o caixão dava a parecer. “Obrigada! Beijinhos!” disse antes de ela própria rir e fechar a sua morte.

G estava um bocado combalida. Não por toda a cena mas porque tinha passado horas a procurar o sítio correcto. Logo hoje que era dia de novo layout!

“Pronto! Feito. Obrigada”
C acenou. “Que mulher estranha” pensava “nem tentou falar com ela, atirou para ali as flores… que raio.”

D assistiu sempre a tudo da mesma forma de sempre – por perto mas sem intervir. Tinha alguns problemas em falar com pessoas no geral, mesmo que lhe fossem próximas.

E embora C estivesse um pouco aborrecida por ter tido de ir ali, compreendia que D estava só a tentar distraí-la dos horrores desta nova vida que ia começar – de forma obrigatória.

Seria agora hora de ir para casa? Aiiii casa…..

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